Os Sarilhos, Formas e Séries no Jogo do Pau Português

Os Sarilhos, Formas e Séries no Jogo do Pau Português

Os Sarilhos, Formas e Séries são métodos de treino do Jogo do Pau que podem ser comparados e descritos como os “Kata” da arte marcial portuguesa.

Caracterizam-se pela ausência de um ou vários adversários durante a execução técnica de combinações de pancadas e defesas, em sequências predeterminadas, com o objectivo de aperfeiçoamento técnico e aprendizagem, podendo ser realizados individualmente ou em conjunto.

Comparação Katas vs Sarilhos / Formas ou Séries

Genericamente, nas artes marciais orientais, o “Kata” pode ser descrito como uma simulação ou representação de  uma sequência de movimentos, ataque e defesa numa luta imaginária. Cada ataque deve ser executado como se pretendêssemos atingir um oponente, e cada defesa deve ser executada como se o adversário nos estivesse a atacar. Descrição que, do ponto de vista genérico, serve que nem uma luva aos Sarilhos, Formas e Séries do Jogo do Pau | Esgrima Lusitana. No entanto, estes 3 métodos de treino são um pouco mais específicos, tanto na sua forma como no seu objectivo.

No “Karaté”, são descritos como uma detalhada simulação de combate de movimentos que é praticada individualmente ou em equipa.
No “Judo”, diz-se que é um conjunto de técnicas fundamentais para transmitir uma determinada técnica.
(informação retirada da Wikipédia)

O que são os Sarilhos, Formas e Séries no Jogo do Pau Português

Existe normalmente alguma confusão na descrição destes 3 exercícios por parte dos praticantes do Jogo do Pau. Talvez porque, em parte, são ensinados em conjunto e, apesar de se distinguirem facilmente do resto de treino mais prático, seja técnico ou de jogo, têm algumas semelhanças entre si.

São os 3 praticados individualmente ou em conjunto (em paralelo por oposição ao atleta contra atleta, em que um ataca e o outro defende) e são os 3 orientados para o aperfeiçoamento da técnica e movimentação individual, sem confronto directo / contacto.

Esta é a descrição que faço normalmente para conseguir distingui-los:

Sarilhos

Movimentos técnicos de defesa treinados em sequência em tempos e movimentos determinados. Estas defesas representam defesas antigas e/ou para situações específicas como por exemplo retirar a tampa da choupa (vara com lamina numa das pontas coberta por uma tampa, normalmente em latão) a meio de uma defesa transformando a vara numa “lança”, geralmente são bons exercícios de coordenação do corpo e da sua relação com a vara e movimentação geral do atleta, além de permitirem a prática e treino da modalidade individualmente.

Formas

Simulações de combate contra vários adversários imaginários através da execução técnica de uma sequência de ataques e defesas. Muitas vezes associadas às escolas do norte, que se dedicavam principalmente ao treino contra vários adversários, mas também fazem parte da técnicas de Lisboa, da Esgrima Lusitana e da Escola do Mestre Pedro Ferreira.

Existem Formas que, quando treinadas em conjunto (paralelo), se tornam esteticamente muito interessantes, criando coreografias que muitas vezes são usadas em demonstrações, mas o objectivo desta coordenação entre atletas não é a demonstração, é a execução técnica no tempo correcto da Forma.

Séries

Estas séries faziam parte do método de ensino dos antigos mestres, que as usavam como programa técnico, fazendo-as corresponder a diferentes fases de aprendizagem dos alunos através de combinações de Defesas e Ataques, Sarilhos e partes das Formas, e normalmente realizadas 1 para 1 (mestre para aluno), este método podemos encontrar descrito no livro do Mestre Frederico Hopffer “Duas palavras sobre Jogo do pau” como as descrições de “Series de pancadas colligidas pelo Sr. Pedro Augusto da Silva

Hoje, a sua utilização é mais abrangente e de acordo com um modelo de sala de aula, ou seja, 1 mestre para vários alunos e funcionam como simulações de combate contra um adversário imaginário através da execução técnica de uma sequência de ataques e defesas.

São, dos 3 exercícios referidos, os mais complexos e que exigem maior conhecimento técnico. Englobam mais técnicas em sequências maiores e movimentação com tempos próprios da técnica.

Por outro lado, além de combinarem todas as vantagens dos exercícios anteriores, também são facilmente identificáveis em demonstrações, por normalmente serem acompanhados por música e realizados por vários atletas em simultâneo e coordenados mas sem interacção entre si.

Vantagens para o treino e desenvolvimento técnico

Este treino, quando bem aplicado, na altura certa e nas idades certas, tem inúmeras vantagens:

Nas camadas jovens e muito jovens, permitem uma familiarização com o uso da vara e com a movimentação do Jogo do Pau sem risco de haver toques entre atletas, além de permitir o treino em modelo de classe com grande número de atletas de forma segura e organizada.

Nas camadas Jovens / Adultos e Seniores, permite também o treino de optimização técnica e de manuseamento da vara, movimentação, equilíbrio e postura, podendo ser realizado individualmente ou em modelo de classe, com diferentes graus de exigência consoante os conhecimentos e desenvolvimento de cada atleta.

Muitas vezes é um tipo de treino que pode ser associado a treinos individuais no exterior (parques, jardins, praias…), incluído ou não noutro tipo de actividade de fitness ou lazer e realizado a baixa ou média velocidade. É por excelência um treino individual de aperfeiçoamento técnico, de coordenação e equilíbrio, possível de executar por todos os atletas de todas as idades, sendo aconselhado a um nível técnico de intermédio e/ou avançado.

No Jogo do Pau Cascais | Stafffighters

Na técnica que leccionamos em Cascais criada pelo Mestre Nuno Russo, estes tipos de treino mantêm-se juntamente com o treino competitivo e o treino tradicional com adversários reais e varas de madeira, em que o atleta é forçado a atacar com intuito de atingir e defender esses mesmos ataques feitos pelo seu parceiro. É uma técnica vocacionada para a eficácia de combate real, a base e o maior objectivo da nossa arte marcial.

Os Sarilhos, Formas e Séries aparecem muitas vezes associados a um treino mais lúdico/ técnico ou de representação. Na realidade, para um praticante de Jogo do Pau da nossa escola, este tipo de treino não deve ser menosprezado, mesmo porque nem sempre temos a possibilidade de treinar contra vários parceiros, e, quando temos, derivado dos diferentes níveis e capacidades de cada atleta, nem sempre conseguimos analisar e aperfeiçoar movimento a movimento.

Para a nossa escola, o aperfeiçoamento técnico é o caminho que percorremos todos os dias para atingir a eficácia de combate e, como tal, estas 3 ferramentas fazem parte integrante da nossa “caixa de ferramentas”, da nossa técnica e do nosso compromisso, com vista à construção do Jogador do grupo de Jogo do Pau de Cascais.

2 comentários em “Os Sarilhos, Formas e Séries no Jogo do Pau Português

    • Ricardo Moura Autor do artigoResponder

      Boa tarde Larissa.

      Não percebi muito bem, qual a sua questão.
      Relativamente às “Formas”,”Sarilhos” e “Séries”, as suas origem e objectivos são diferentes e explicados no artigo, no nosso grupo usamos as 3 como exercícios de coordenação, movimentação, melhoramento da técnica, entre outros (dependendo da classe e das idades dos praticantes, claro).

      Sobre o “Jogo do Pau” propriamente dito, a finalidade é objectiva e marcial, defender todos os ataques que nos sejam deferidos e provocar o máximo de dano no oponente com o menor esforço possível.
      A forma e acção, se se pode chamar assim, ou seja, o método como chegamos ao nosso objectivo, começa por uma defesa segura bem treinada e executada, com uma movimentação à base de rotação do corpo e da vara que nos mantenha a uma distancia segura e em equilíbrio do momento em que nos mexemos até ao momento em que finalizamos o nosso ataque.

      Espero que tenha respondido em certa medida à sua questão.
      Se me fizer uma pergunta um pouco mais desenvolvida talvez possa explicar melhor.

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